Ricardo Lopes

O mercado de transferência nacional fechou em Portugal no dia 1 de Setembro, sem qualquer novidade para os lados de Viseu. A falta de atividade nas últimas horas tem de ser vista pelo prisma positivo. Todas as contratações do Académico foram realizadas com antecedência, o que reflete um bom planeamento e permite um entrosamento mais rápido e realizado numa fase inicial da temporada.

Se compararmos o plantel academista com o da temporada transata, houve um notório upgrade. Entraram 17 novos jogadores para os quadros, sendo que três (Grill, Famana Quizera e Millioransa), assinaram em definitivo após uma temporada de empréstimo. Na Segunda Liga é normal ocorrer um elevado número de mudanças num plantel de uma temporada para a outra, já que a maioria de contratos é só de um ano. A lógica é simples: se o jogador ficar abaixo das expectativas é descartado, se cumprir e destacar-se ou renova por mais um ano ou rapidamente dá o salto. Poucas equipas demonstram interesse e/ou capacidade de fazer contratos longos, algo que o Académico optou por realizar, mas já abordaremos esse tópico. O clube com as alterações que realizou, tem de ser considerado um candidato à subida. Se há espaço para elogiarmos o plantel do Moreirense, este ano conseguimos olhar para os jogadores que estão à disposição do clube da nossa cidade e admitir que é fortíssimo e que tem vastas valências.

Não existe um único lugar do XI onde haja um deficit de qualidade. Na baliza, a manutenção de Grill foi uma grande notícia, já que “deu pontos” o ano passado. Na defesa recebemos os patrões da posição do Feirense e do Sporting da Covilhã, sendo André Almeida um central com capacidade de jogar na Primeira Liga, mesmo atualmente. A Hobra colocou Arthur Chaves, que se destacara pelo Avaí no Brasileirão e que custou 2,4M de euros, algo que não acontece todos os dias nesta divisão. Já no miolo o regresso de Capela representa o retorno de um capitão, sendo um sinal de liderança. Nduwarugira é facilmente o melhor 6 do campeonato, depois do que demonstrou ao serviço do Leixões. Currás brilhou na Youth League e Soufiane um 8/10 que era titular na Bundesliga 2 (e que quando regressar de lesão deverá somar muitos minutos, sem qualquer tipo de problemas). Nas alas, Ott permite jogar em 3x4x3 ao acrescentar qualidade ofensiva (um pouco como Pedro Porro, com as devidas distâncias e do lado contrário). Já no ataque, Clóvis demonstrou que será o matador, com Toro e Famana a jogarem em todas as posições detrás do ponta de lança e até no meio campo. Ricardo Ramírez e Labila podem ser boas soluções a partir do banco, sendo os mais desconhecidos aos olhos do público. Por fim Roberto Massimo, que apresenta o melhor CV e que tem tudo para ser o MVP da Segunda Liga, caso jogue no lugar certo e esteja motivado.

No fundo, o futuro treinador poderá chegar e colocar a equipa na tática que mais desejar, pois há alguma versatilidade, havendo atletas que fazem mais do que uma posição (Capela, Ott, Millioransa, Famana, etc.), mantendo a qualidade. Já não será um problema assumir o jogo, pois os jogadores que neste momento estão no plantel oferecem inteligência tática e uma capacidade ofensiva que não existia no passado. Facilmente se pode jogar com 4 defesas (Tiago Mesquita, Ícaro, Arthur Chaves e Ott, por exemplo), com os laterais ofensivos e a oferecer mais soluções ao nível da decisão no movimento atacante. A alternativa dos três centrais pode ser explorada sem medo, já que existem opções suficientes para o realizar (com qualidade no passe e saída e com pés diferentes). Há também a opção de ter um meio campo a 2 ou a 3, pois há elementos suficientes para as várias tarefas, com construção de jogo (defensiva e ofensiva), box to box, destruição do jogo adversário, até de mezzala. No ataque parece obrigatório existir um 9 fixo, neste caso Clóvis/Nussbaumer, no entanto em caso de lesão dos goleadores, um ataque mais móvel poderá ser uma realidade (com Ramírez a ganhar enfâse neste caso).

Foi um mercado completamente diferente dos anteriores. A opção por ir buscar atletas com margem de progressão e capacidade de atuar na Primeira Liga (e levar o clube até ela), contrasta com a atitude de mercados anteriores, onde se olhava mais para a sobrevivência. Muitos destes jogadores são para o longo prazo, daí os contratos largos oferecidos a Grill ou a Arthur Chaves. Mariano Maroto López quererá estabelecer uma base de jogadores para ficarem por algum tempo no Fontelo. Sem essa base, uma equipa nunca terá sucesso, já que estarão num constante vaivém e todas as épocas se viverão reconstruções completas, como já vimos inclusivamente no Fontelo em épocas passadas.

No entanto, há que ter sempre uma ideia base na cabeça. O Académico de Viseu pouco ou nada irá ganhar em termos de capital no caso de boas vendas. Tal como acontece no Famalicão, é uma empresa que controla a SAD que investe o capital, por isso tem direito ao lucro que o seu investimento está a realizar. O Académico somente retira o proveito desportivo dos atletas. Enquanto SAD e Clube estiverem de mãos dadas, não irá aparecer nenhum problema.

Há que ter a noção que foram muitas entradas e algumas saídas. Não havendo ainda um treinador definitivo, é natural que os resultados destas primeiras jornadas não estejam a ser excelentes, pois o projeto está na sua fase inicial, quiçá embrionária. O que se prevê é uma subida na tabela ao longo de toda a temporada, com a noção de que a Segunda Liga é um campeonato bastante equilibrado.

Este mercado do Verão de 2022 pode ser fundamental para o futuro do clube. Com a chegada de autênticos craques, o entusiasmo dos adeptos aumentou, o que levou até agora a excelentes assistências no Fontelo. A que conclusão podemos chegar? Mais do que podermos ver Roberto Massimo ou Clóvis ao vivo, está-nos a ser permitido visualizar o regresso da União entre Cidade e Clube, fundamental para a sobrevivência do mesmo.

Artigo de Ricardo Lopes – Mestre em Estudos Avançados e Investigação em História

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